Ainda me lembro daquela noite em que me vieste buscar a casa e me levaste para aquele lugar que me roubou a respiração e o sono. Já te receava antes de te ver; e ao ver-te perdi a fala. Por isso nunca cheguei a confessar-te que és o homem no mundo que melhor faz cafuné, e que quando te pedia, com a respiração suspensa, que ligasses a luz do carro, não era por me poder esquecer dos traços do teu rosto; mas por ter medo que te embrenhasses na escuridão e acabasses por desaparecer.Também pensei na solidão que me ia assaltar nessa noite quando me despedisse de ti, sem mais truques, nem jogos, nem histórias com que enganar a tua companhia. Pensei no pouco que tinha para te oferecer e no muito que queria receber de ti... Mil vezes quis recuperar todas as palavras que me disseste, a tua imagem a tentar dizer mbuki-mvuki, os nossos jogos infantis, a promessa de um mergulho no rio gelado. Mil vezes quis regressar e perder-me outra vez em ti; mas só consigo lembrar com precisão uma imagem única de ti: tu de olhos fechados, a sorrir, encostado ao banco do carro. Teria gostado de te ver uma última vez, poder olhar-te nos olhos e dizer-te coisas que não sei contar numa carta; contudo sinto e sei que não vamos nunca voltar a estar juntos como naquela noite, às escondidas até de nós próprios. Mesmo assim, para mim, tu és perfeito.
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